quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Vigilantes do ambiente


Numa fase em que os avanços tecnológicos parecem imparáveis, a utilização de líquenes para monitorizar a qualidade do ar pode parecer uma prática retrógrada. O biólogo Jorge Nunes mostra como estas fascinantes manchas vivas têm vindo a afirmar-se na monitorização ambiental e a conquistar seguidores em Portugal.

A maioria dos líquenes assemelha-se a salpicos de tinta que parecem ter caí­do de uma tela de pintura, formando manchas coloridas espalhadas ao acaso pela paisagem. São organismos bastante ubíquos, encontrando-se desde os píncaros mais agrestes das montanhas geladas até às inóspitas zonas das marés, ao nível do mar, onde apenas organismos altamente especializados conseguem sobreviver à dureza da rebentação das ondas e à ininterrupta alternância entre o mundo terrestre e aquático. Com as suas múltiplas cores e formas geralmente bizarras, qualquer superfície lhes serve de suporte, desde o património natural (rochas, troncos de árvores, etc.) ao construí­do pela mão humana (monumentos, muros, telhados, etc.).

Ainda que a maioria das pessoas já tenha reparado nestas curiosas pinturas abstractas, estão longe de imaginar que, por detrás daqueles borrões, se escondem curiosos seres vivos que se contam entre os mais antigos da Terra. Custa a acreditar que aquelas estranhas manchas possam nascer, crescer e reproduzir-se como a maioria das plantas e dos animais que conhecemos, mas quanto a isso parece não haver quaisquer dúvidas. Aliás, as curiosidades dos líquenes não se ficam por aqui, pois julga-se que possam existir actualmente mais de 15 mil tipos de “manchas”, ou seja, mais de 15 mil espécies de líquenes, cada uma com os seus segredos e especificidades.

A palavra “líquen” tem a sua etimologia no grego e significa literalmente “musgo das árvores”. Foi utilizada pela primeira vez por Teofrasto (372–287 a.C.) para se referir aos organismos que cresciam sobre as cascas das oliveiras. Até ao século XVIII, os líquenes foram incluídos no reino das plantas, mais propriamente no grupo dos musgos. Contudo, com a evolução da tecnologia e concomitantemente das ciências biológicas, por volta de 1869, o botânico alemão Schwendener desvendou uma das mais fascinantes características dos líquenes, constatando que não são um único organismo, mas a associação de dois seres vivos diferentes que se ajudam mutuamente, vivendo em estreita cooperação. Esta descoberta foi tanto mais importante quanto a constatação de que os organismos que constituem o líquen são oriundos de reinos diferentes: geralmente, uma alga verde (pertencente ao reino dos protistas) e um fungo (reino dos fungos). Actualmente, sabe-se que os líquenes até podem envolver seres de três reinos distintos, uma vez que as algas verdes poderão dar lugar a (ou coexistir com) cianobactérias, também conhecidas por “algas azuis”, que pertencem ao reino Monera.

Os líquenes surgem em quase todos os ecossistemas da Terra, desde os desertos gelados dos pólos às regiões áridas e escaldantes dos trópicos. Esta capacidade de sobreviver em condições extremas advém-lhes do facto de serem organismos simbióticos, que resultam da união e cooperação de vários parceiros. Existe um fungo, também denominado “micobionte”, a que se juntam um ou mais indivíduos fotossintéticos, chamados “ficobiontes”, como as algas verdes (que estão presentes em cerca de 85 por cento das espécies de líquenes) e as cianobactérias (que surgem em aproximadamente 10% dos líquenes). Os restantes 5% resultam da presença simultânea de dois tipos de ficobiontes (Protistas e Moneras).

A que se ficará a dever esta associação tão estranha entre dois seres vivos tão diferentes? A resposta em relação ao fungo é relativamente óbvia: ele recebe do parceiro fotossintético os compostos orgânicos necessários para a sua nutrição. Contudo, a forma como retira os nutrientes do ficobionte é pouco condizente com o que seria de esperar de uma união coo­pe­rativa. O enlace entre os dois seres não é propriamente uma romântica história de amor, pois começa com o fungo a capturar do meio as algas que mantém cativas no seu interior.

Como se não bastasse a reclusão das algas, o fungo ainda desenvolve filamentos sugadores que penetram no ficobionte e extraem dele a preciosa seiva que lhe vai servir de alimento. Esta aparente submissão do ficobionte ao micobionte levou vários investigadores a considerar os líquenes mais como um exemplo de parasitismo, onde o fungo nitidamente explora a alga, do que um caso de cooperação. Só que, embora se torne mais difícil enumerar os ganhos para o ficobionte, eles na realidade também existem. As algas são organismos muito frágeis e dependentes da água, que jamais sobreviveriam durante muito tempo sem a protecção dos filamentos do fungo (que evitam a exposição à luminosidade intensa e a desidratação resultante das temperaturas elevadas).

Esta, no entanto, parece ser uma relação perversa e um verdadeiro casamento por interesse. As algas e os fungos parecem viver em equilíbrio precário, pois se fornecermos ao fungo condições nutritivas ideais, tais como hidratos de carbono dissolvidos, ele não se preocupará mais com a alga, acabando por asfixiá-la. Do mesmo modo, a alga apresentará vida livre na presença de condições ideais de luminosidade, disponibilidade de água e sais minerais. Perante estes factos, há quem defenda que a liquenização só se justifica quando os dois organismos encontram condições relativamente desfavoráveis que os impedem de sobreviver sozinhos.

Contudo, convém não esquecer que o líquen possui a sua própria individualidade, pelo que faz muito mais sentido analisar os benefícios do líquen como um todo do que as vantagens parcelares dos organismos que o constituem. É a união de dois seres vivos tão distintos que confere aos líquenes a resistência a condições ambientais totalmente adversas e faz deles espécies pioneiras em ambientes inóspitos (como é o caso das ilhas vulcânicas ou de qualquer outro lugar da Terra onde exista vida), criando as condições necessárias à fixação progressiva de espécies vegetais e animais cada vez mais complexas, num processo denominado de “sucessão ecológica”. Nesses lugares hostis, o fungo, sozinho, não conseguiria obter as substâncias nutritivas de que necessita e as algas, isoladas, seriam rapidamente destruídas. Juntos podem conquistar novos biótopos que de outro modo lhes seriam completamente interditos e isto traz-lhes manifestas vantagens.

Manchas vivas
Embora os líquenes sejam vulgarmente referidos como “manchas vivas”, convém esclarecer que nem todas as 15 mil espécies surgem sob a forma de manchas e, mesmo quando isso acontece, apresentam formas e cores muito variadas. Quem nunca reparou nos estranhos “cabelos” esverdeados que pendem dos ramos de diversas plantas ou nas ramificações multicolores que decoram os monumentos e os troncos de muitas árvores?

No que respeita às cores, vão desde o vermelho ao azul, passando pelo verde e o amarelo. Para além das cores padrão, apresentam uma enorme diversidade de tons que variam de espécie para espécie e dentro da mesma espécie em função do substrato onde se fixam.

Quanto à morfologia, podem considerar-se três tipos de líquenes: incrustados (semelhantes a manchas), folhosos (imitando folhas) e fruticolosos (idênticos a pequenos arbustos). As espécies incrustadas formam uma crosta colada ao substrato, geralmente rochas e cascas de árvores, estando por isso bem adaptadas para sobreviver nas mais extremas condições ambientais e tornando difícil ou impossível a sua remoção sem destruir a estrutura do líquen. Os líquenes folhosos, como sugere o seu nome, assemelham-se a pequenas folhas e encontram-se fixos ao substrato de forma mais ténue. Quanto aos fruticulosos, parecem pequenos arbustos mais ou menos ramificados que se encontram fixos ao substrato de forma bastante incipiente. Estes últimos si­tuam-se entre os maiores dos líquenes, podendo atingir dois metros de comprimento.

Os três tipos de líquenes não são apenas distintos do ponto de vista morfológico, mas a sua organização estrutural condiciona igualmente muitas das suas características, como, por exemplo, a longevidade. Assim, os líquenes fruticulosos, como a Cladonia, vivem no mínimo dez anos, enquanto os incrustados, como o Rizocarpon, podem ultrapassar um século de vida. Quando os líquenes vivem tantos anos, geralmente possuem um crescimento muito lento, que é muitas vezes inferior a um milímetro por ano. Nas espécies foliáceas, de que é exemplo a Peltigera, que apresentam uma longevidade intermédia, o crescimento é mais rápido, podendo atingir os três centímetros anuais.

Ao contrário da maioria dos seres vivos, não é fácil dizer quando é que um líquen está morto, dado que, mesmo quando totalmente seco durante vários anos, bastarão algumas singelas gotas de água para fazê-lo “ressuscitar”. Esta notável capacidade de passar rapidamente a um modo de vida retardado inibindo as funções vitais, devido à perda repentina da maior parte da água da sua constituição, poderá ser um dos mais significativos aspectos que têm contribuído para o sucesso dos líquenes. É esta invulgar capacidade que permite a algumas espécies suportar um frio próximo de –196 ºC e a outras temperaturas de cerca de 100 ºC, sendo quase todas resistentes a temperaturas que oscilam entre os –20 ºC e os 70 ºC.

Os líquenes incrustados, que se desenvolvem sobre as rochas nos desertos, podem mesmo sobreviver vários meses num estado totalmente dessecado. Conseguem retirar da humidade atmosférica ou do orvalho matinal uma quantidade de água suficiente para reactivar as suas funções vitais durante um curto período de tempo, antes do calor tórrido voltar a bloqueá-las.

Curiosamente, também ao nível estrutural o fungo tem a supremacia, pois é dele que depende em grande medida o aspecto do líquen. Assim, o micobionte ocupa a maior parte do líquen, dando-lhe forma, enquanto as algas e as cianobactérias se distribuem mais ou menos homogeneamente pelo seu interior. Esta localização interna leva a que também ao nível da reprodução o líquen pouco ou nada dependa do ficobionte, cabendo essencialmente ao fungo a produção de estruturas reprodutivas, quer sexuadas, quer assexuadas. Devido a esta hegemonia do fungo na relação simbiótica, os líquenes passaram a ser considerados e classificados como um grupo particular de fungos, com várias peculiaridades biológicas.

Inspectores da qualidade do ar
Por volta de 1866, o liquenologista escandinavo Nyland notou que alguns líquenes observados em certas árvores nos arredores urbanos de Paris não eram encontrados nas mesmas espécies arbóreas que estavam plantadas no centro da cidade. Deduziu que, apesar de essas espécies já terem existido nos parques e jardins citadinos, teriam desaparecido devido à acção de poluentes que foram contaminando progressivamente a atmosfera. A partir daí, veio a comprovar-se que os líquenes são susceptíveis aos gases atmosféricos, dado que absorvem e acumulam os poluentes, podendo servir como indicadores biológicos da qualidade do ar.

Embora tenham sido capazes de se adaptar a ambientes inóspitos e de sobrevivência difícil, os líquenes não são indiferentes às condições do meio. São extremamente sensíveis às variações da poluição atmosférica, em especial à provocada pelo dióxido de enxofre, sendo esta a principal causa da regressão e do desaparecimento de diversas espécies em várias regiões urbanas e industrializadas da Europa.

O dióxido de enxofre, embora possa ocorrer naturalmente na atmosfera, é um poluente que resulta essencialmente da queima de combustíveis fósseis utilizados em diversos processos industriais e dos gases libertados pelos escapes dos veículos. Trata-se de um gás incolor, irritante para as mucosas dos olhos e das vias respiratórias, podendo ter, em concentrações elevadas, efeitos agudos e crónicos na saúde humana, nomeadamente ao nível cardiovascular e do aparelho respiratório.

A eleição dos líquenes como bioindicadores não foi feita ao acaso, mas resultou, essencialmente, das suas peculiares características e exigências ecológicas. De entre as mais importantes, salienta-se não possuírem camadas protectoras (que são comuns nas folhas das plantas); não terem raízes e não retirarem do substrato os seus nutrientes (captando-os, essencialmente, da atmosfera); produzirem o seu próprio alimento através da actividade fotossintética das algas que os constituem; apresentarem crescimento ao longo de todo o ano; serem bastante resistentes às condições atmosféricas de humidade e temperatura adversas; possuírem uma ampla distribuição geo­gráfica; serem fáceis de identificar e estudar; terem a capacidade de acumular poluentes atmosféricos e apresentarem grande sensibilidade às variações da contaminação do ar.

Os poluentes atmosféricos induzem vários efeitos nos líquenes, que vão desde a redução do potencial reprodutivo e a diminuição do crescimento até às modificações morfológicas e às alterações fisiológicas (ao nível da fotossíntese e da respiração). Portanto, as diferentes espécies de líquenes não reagem do mesmo modo à contaminação atmosférica e desse modo a vitalidade e abundância de uma dada espécie permitirá estimar a quantidade de poluentes e a respectiva qualidade do ar.

A sensibilidade dos diferentes líquenes aos poluentes atmosféricos está bastante dependente do tipo de líquen, uma vez que, como facilmente se percebe, os líquenes fruticulosos e folhosos, porque possuem uma área de contacto com o ar muito maior, são geralmente mais sensíveis e mais utilizados. Pelo contrário, as espécies incrustadas, devido à sua grande adesão ao substrato, apresentam uma menor área de contacto com o ar e com as eventuais substâncias químicas que aí surjam, sendo o seu efeito mais difícil de observar, dado que o organismo demorará mais tempo a reagir à sua presença.

Embora as máquinas de medição atmosférica sejam muito mais precisas na quantificação dos poluentes, jamais conseguirão demonstrar o impacte dos valores medidos nos seres vivos que habitam nesses locais. Assim, em pleno século XXI, em que os avanços tecnológicos parecem imparáveis, a utilização dos líquenes para monitorizar a qualidade do ar continua a conquistar seguidores e parece apresentar evidentes vantagens, que não são de menosprezar. Mencione-se, entre outras, a facilidade de utilização, o baixo custo, a obtenção rápida de resultados e o facto de permitir o acompanhamento da evolução da qualidade do ar num dado local, através da variação da variedade e da vitalidade das espécies liquénicas. Um outro benefício, referido amiúde pelos investigadores, relativamente a este “método natural”, é não permitir apenas determinar a qualidade do ar (inferindo a quantidade de poluentes existentes num dado local), mas mostrar claramente os seus efeitos nos seres vivos.

Isto não significa que a biomonitorização ambiental (recorrendo aos líquenes e musgos) deva substituir a monitorização física (realizada através de estações de amostragem constituídas por tecnologia muito avançada e com elevados custos de aquisição, instalação, operação e manutenção), mas que seja entendida como um seu complemento.

Diz-me que líquenes vês...
Embora os líquenes possam ser muito fiáveis como bioindicadores, é necessário conhecer muito bem a morfologia e a fisiologia das espécies que são usadas, de modo a que as interpretações ecológicas sejam consideradas válidas para um dado local, isto porque estes organismos não se comportam exactamente da mesma forma em todos os locais onde surgem. Este facto obriga a que as conclusões de estudos liquénicos realizados numa dada região ou país não possam ser directamente extrapolados para outros locais sem antes garantir que o comportamento dessas espécies é similar.

Quando os investigadores pretendem utilizar uma determinada espécie de líquen para estudos de poluição atmosférica e ela não existe nesse local, podem fazer transplantes a partir dos lugares onde a espécie se desenvolve com vitalidade. Esta técnica de transplantes tem demonstrado enorme fiabilidade, uma vez que, desta forma, é possível utilizar espécies amplamente testadas, conhecendo-se, desde o início, o modo como elas se comportam em determinadas condições atmosféricas durante vários meses ou até anos. Durante esse período, os cientistas monitorizam parâmetros como as alterações morfológicas, ultraestruturais e fisiológicas dos líquenes e a acumulação de substâncias contaminantes.

Para a utilização dos líquenes como bioindicadores da qualidade do ar, recorre-se geralmente a escalas qualitativas que permitem relacionar a ausência/presença de determinadas espécies e a sua vitalidade (dimensões, estruturas reprodutoras, etc.). Contudo, de modo a obter dados fiáveis e representativos das áreas em estudo, é necessário utilizar escalas adaptadas a essas mesmas regiões, tendo em conta a diversidade de espécies liquénicas e as condições climáticas.

No caso de Portugal, uma equipa de investigação coordenada por Cecília Sérgio, da Faculdade de Ciências de Lisboa, iniciou trabalhos de campo em 1978 e tem produzido vários estudos nos quais são utilizados os líquenes (e briófitos) como indicadores biológicos da poluição atmosférica, designadamente na região de Lisboa e Vale do Tejo. Na sua peugada, muitos outros investigadores têm realizado diversos estudos um pouco por todo o país. Um dos mais propalados foi o projecto SinesBioar, um estudo de monitorização e gestão da qualidade do ar da região de Sines, em que se empregou a diversidade de líquenes e a acumulação de substâncias tóxicas (enxofre, azoto, chumbo, cobre, níquel, alumínio, ferro, titânio, silício, magnésio, manganês, cobalto, mercúrio, cálcio, potássio, cádmio) como indicadores da intensidade e do tipo de contaminação atmosférica. Através do estudo dos líquenes, foi possível elaborar mapas que mostraram ao redor de Sines e expandindo-se para Sueste, no sentido dos ventos dominantes, a distribuição dos poluentes.

Se quiser saber a qualidade do ar que se respira num dado local, basta fazer um pequeno passeio e prestar atenção aos troncos das árvores. Se observar muitos líquenes, isso é um bom sinal, principalmente se forem fruticulosos. É caso para dizer: diz-me que líquenes vês, dir-te-ei o ar que respiras!


J.N.
SUPER 154 - Fevereiro 2011

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Matriarca do ambiente



Judith Cortesão: do Porto para o resto do mundo
É difícil encontrar, no Brasil, um ambientalista que não se sinta devedor do legado de Judith Cortesão. No entanto, a vida aventureira desta portuense tem muito mais facetas, convergindo num ponto focal: Judith era uma entusiasta da felicidade geral.

Até à década de 1970, nenhuma criança sabia o que era ecologia, poluição, etc.”, dizia, em 2000, a ambientalista Judith Cortesão, constatando com algum optimismo a clara mudança de mentalidade ambiental que ocorreu nas décadas seguintes. Se a transformação não estava ainda perto de resolver todos os problemas ecológicos, ela era, para esta incansável luso-brasileira, “a maior força de esperança de um futuro em que haja mais dignidade para todos os seres e mais paz entre os homens”.

Através da “formação de quadros”, como gos­tava de dizer, da criação e concretização de projectos nas mais diversas áreas, das pes­qui­sas realizadas ou das batalhas empreendidas em nome da conservação e da integração, Ju­dith (que morreu aos 92 anos, em 2007) foi uma das grandes pioneiras desse processo no Bra­sil, com uma trajectória que lhe rendeu o ape­lido de “matriarca do ambientalismo brasileiro”.

Mas mesmo com o destaque cada vez maior dado aos assuntos ecológicos em todo o mundo e após uma eleição presidencial em que os temas “verdes” pautaram como nunca o debate político brasileiro, o nome de Judith Cortesão manteve-se, de modo geral, restrito aos círculos ambientalistas no Brasil, apesar de os seus feitos serem visíveis por todo o país. Em Portugal, de modo semelhante, pouco se sabe de Judith para além do facto de ser filha do historiador Jaime Cortesão ou de ter sido casada com o filósofo Agostinho da Silva.

Judith não procurava fama ou dinheiro, mas apenas concretizar os seus projectos e mudar as mentes, levasse isso o tempo que levasse. E assim participou, citando uma pequena parte dos seus feitos, em expedições à Antárctida, na concepção de organizações não-governamentais como o SOS Mata Atlântica e o Instituto Acqua, na criação de diversas reservas ecológicas e na redacção da Constituição do Brasil no capítulo dedicado ao meio ambiente, além de ter sido consultora da UNESCO, representante do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Brasil (SPHAN), professora de pós-graduação em educação ambiental na Universidade Federal do Rio Grande (Rio Grande do Sul) e muito mais.

Vida de aventura
Para Judith, a vontade de acção, a militância e a busca de aventuras nunca se desligaram de uma insaciável sede de conhecimento. Ao longo da vida, frequentou seis cursos universitários (medicina, letras, biblioteconomia, antropologia, climatologia e meteorologia), estudou desde a espeleologia à história e aprendeu 14 línguas, incluindo árabe e chinês. Mas a sua incrível trajectória começara muito antes de tudo isso, ainda no Portugal do início do século XX.

Cidadã de ideias mais do que de países, como a definiu o intelectual português Manuel António Pina, Maria Judith Zuzarte nasceu no Porto em 1914 e teve uma vida digna de filme. Ainda jovem, mudou-se para Paris, onde cursou letras na Sorbonne, voltando a Portugal para continuar os estudos em Lisboa. Por pouco tempo: perseguida pelo governo de Salazar, a família Cortesão muda-se para Barcelona nos anos 30. Durante a Guerra Civil, o edifício em que vivem é bombardeado e Ju­dith fica ferida num braço. A família foge para França, atravessando os Pirinéus a pé. “Ela muitas vezes me contou dos horrores que presenciou na Guerra Civil. Com certeza foi o despertar da ambientalista, estrategista devota pela preservação da vida em todas as suas formas”, diz Manuel Touguinha, amigo próximo de Ju­dith e seu parceiro em projectos no Brasil a partir dos anos 90.

No fim dos anos 30, Judith é presa pelo regime salazarista quando regressa a Portugal, mas foge da prisão, e em seguida do país, regressando a Espanha. É nessa época, já durante a Segunda Guerra Mundial, que a família se transfere para o Brasil, onde recebe asilo e onde Jaime Cortesão se dedica aos estudos da história do país. Nesse período, convivem com importantes nomes da intelectualidade brasileira, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Sérgio Buarque de Holanda, Assis Chateaubriand e Cecília Meireles, o que viria a influenciar muito a formação de Judith.

No Brasil, Judith casa com Agostinho da Silva, que também abandonara Portugal perseguido pelo governo de Salazar. Nos anos seguintes, o casal tem seis filhos e mora sucessivamente no Rio de Janeiro, em Itatiaia, em Santa Catarina e também no vizinho Uruguai.  Ali, já separada de Agostinho, durante o regime militar, no início dos anos 70, Judith é novamente presa e torturada, sob a acusação de estar ligada aos guerrilheiros tupamaros. “Contava que deixava os torturadores mais agressivos, porque nos interrogatórios ela dormia profundamente, de propósito, e não sentia os golpes de tortura”, conta Touguinha.

Após passar pelo Chile, pelo Peru e possivelmente por muitos outros lugares (nunca parou muito tempo no mesmo sítio), Judith regressa a Portugal e vive intensamente os dias da Revolução dos Cravos. No final dos anos 70, volta ao Brasil, onde se estabelece e, já com mais de 60 anos, mas com o espírito aventurei­ro de sempre, começa a sua trajectória mais directamente ligada ao ambientalismo.

Ambientalista educadora
Em tudo o que fazia, Judith carregava um persistente optimismo e um olhar profundamente humanista. Com uma visão sempre à frente do seu tempo, compreendeu e difundiu a necessidade de preservação ecológica antes mesmo de o ambientalismo se tornar um movimento organizado, em meados dos anos 80.

E preservar, para ela, significava pensar o homem integrado na natureza, sabendo das necessidades humanas e do dever de melhorar a qualidade de vida, principalmente num país tão desigual como o Brasil. “Nunca vi a Judith dizer: vamos salvar tal coisa em detrimento daquela população. Ou seja, se for preciso desmatar alguma coisa para poder plantar, porque não se tem o que comer, ela achava isso possível”, diz o ambientalista Theodoro Hungria, discípulo de Judith e seu parceiro em projectos no cerrado do país.

Assim, de facto, definir Judith apenas como “ambientalista” ou “ecologista” parece excluir as suas incontáveis outras facetas, ­áreas de interesse e de actuação: a antropóloga, a historiadora, a bióloga ou a médica (idealizou um dos mais importantes centros de formação de médicos na renomada rede de hospitais Sarah Kubitchek). Mas, para ela, falar em ecologia incluía tudo isso e muito mais; incluía animais e homens, natureza e sociedade, desenvolvimento e conservação, já que não compartilhava de uma visão segmentada do mundo. “Tudo era uma grande teia da vida. Nada estava separado e tudo se unia”, explica Touguinha.

Bom exemplo dessa visão é o seu depoimento para o documentário Intérpretes do Brasil, no qual explica aspectos da colonização brasileira e da mentalidade portuguesa da época a partir da beleza da ecologia marinha: “Os relatos [dos portugueses] falam da transparência das ondas e dos pequenos peixes rubros. Aquelas ilhas representavam o triunfo da vida sobre a matéria (...), eram cheias de coisas extraordinárias. Tudo isso é natural que tenha levado os navegadores ao mito, que tenha feito com que o Brasil, pela circunstância do esplendor e da variedade de sua paisagem, virasse a terra, por excelência, do mito.”

É difícil encontrar entre os mais importantes ambientalistas brasileiros de hoje (nas ONG, nas universidades, no governo, etc.) quem não tenha tido alguma influência, directa ou indirecta, de Judith. A sua vontade de formar “agentes multiplicadores de educação ecológica”, fossem crianças ou jovens universitários, moradores das comunidades, políticos e gente variada, parece ter resultado.

Legado de direitos e deveres
“Ela nunca falava com o cargo, ela falava com a pessoa. Então, era um relacionamento humano, em todos os sentidos. Você via almirantes trocando confidências com a Judith da mesma maneira que o pescador, um indígena ou um ambientalista. E essa facilidade dela de falar com as pessoas e ir encantando, isso teve um peso muito grande”, diz Clayton Ferreira Lino, presidente da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, um dos projectos que teve a mão de Judith.

O seu encanto fazia parte da sua estratégia. E com essas estratégias Judith foi criando infindáveis projectos ao longo da vida. Quando eram tantos que não podiam ser executados pela própria criadora, Judith instigava os seus discípulos a levá-los por diante. “Todos os dias nascia um projecto novo”, conta Touguinha. E foi com ele, em 1998, que a senhora Cortesão se mudou para Ilópolis, uma pequena cidade de colonização italiana no Sul do Brasil, onde concebeu, além de projectos ecológicos, a recuperação dos históricos moinhos de farinha da região.

Já muito doente e fragilizada, Judith muda-se para a Suiça em 2002, para cuidar da saúde e para “estar com os meninos”, já que a maioria de seus filhos vivem na Europa. Em 2003, ainda regressou ao Brasil para receber do presidente Lula da Silva a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural Brasileiro, o que fez com grande satisfação e a sensação do dever cumprido. Em 2007, morreu na Suiça, sem deixar fortuna (fora a grandiosa colecção de livros e de artesanato), mas legando muitos olhos abertos para “o esplendor da vida no planeta”, e atentos para os deveres que este esplendor implica.

M.G.F.
SUPER 154 - Fevereiro 2011

sábado, 11 de agosto de 2018

O que diz a Antárctida



Estudar o aquecimento global no meio do gelo
Durante um mês, acompanhámos o trabalho e partilhámos o frio com os cientistas norte-americanos na base polar Palmer, onde se estudam os efeitos das alterações climáticas.

Da ponte do navio oceanográfico, vemos surgir seis construções de metal ondulado à luz cremosa do amanhecer. Chegámos à mais pequena das três estações de investigação norte-americanas na Antárctida, a mais distante do Pólo Sul geográfico. Ancorada num promontório rochoso na encosta do glaciar Marr, nas margens da ilha de Anvers, a Base Palmer assenta num pedaço de gelo fendido onde nem uma avioneta pode aterrar. É difícil conceber um local mais solitário e isolado.

Este reduto da civilização existe desde 1974 para estudar a comunidade biológica da península antártica, a mais rica do continente branco. Durante um mês, convivemos com as dezenas de pessoas que se dedicam a conhecer a reacção de um ecossistema particularmente sensível à mudança climática, desde a forma como afecta uma simples molécula de água até uma baleia. Alguns dos cientistas já visitam regularmente esta animada estação há quatro décadas.

Devido a diferentes circunstâncias oceanográficas, atmosféricas e geológicas, a península antárctica está a aquecer até cinco vezes mais depressa do que o resto do planeta. Através do projecto Investigação Ecológica a Longo Prazo (LTER, nas siglas em inglês), coordenado pelo Marine Biological Laboratory (MBL) do Massachusetts, procura-se compreender como irá reagir o resto do globo. Os resultados obtidos em Palmer ao longo de várias décadas são tão exactos e minuciosos que têm constituído a base de diversas legislações e acordos internacionais.

Manda o gelo
Equipados com laboratórios relativamente complexos e seis lanchas Zodiac, os biólogos estudam, ao longo de quase todo o ano, a evolução de aves e peixes, mamíferos marinhos, fitoplâncton, crustáceos, invertebrados, bactérias e o zooplâncton conhecido por krill, principal fonte de alimento dos habitantes do extremo sul do planeta. Observam igualmente as alterações produzidas na composição química da água, o modo como a luz a penetra e a estrutura dos glaciares.

“A resposta reside no gelo”, assegura Hugh Ducklow, investigador principal em Palmer e director do Centro de Ecossistemas do MBL, que se dedica há décadas ao trabalho de campo na zona. “Quando o seu volume aumenta ou diminui, as alterações químicas, físicas e biológicas associadas a essa variação afectam o planeta a nível global. Configuram a base de muitos processos, numa cadeia que começa no mar e na atmosfera e termina nas nossas despensas e bolsas.”

A diversidade biológica da península antárctica e das suas águas costeiras evoluiu no contexto de um clima que permaneceu relativamente estável durante milénios. Aqui, onde a profundidade do mar desce, abruptamente, dos 700 para os 3000 metros, a corrente circumpolar antárctica despeja na superfície gigantescas quantidades de nutrientes. Esse “tapete rolante” aquático que rodeia o continente, com a força e o caudal equivalentes aos dos dez maiores rios do mundo multiplicados por cem, recebe água quente dos outros oceanos e transfere a temperatura para o litoral da península antárctica.

“É neste lugar que principia o efeito dominó”, explica Chris Neill, do MBL. “A brancura do gelo reflecte em direcção à atmosfera 80 por cento dos raios solares, e evita assim que estes aqueçam o planeta. Porém, com a redução da camada de gelo, a água absorve o calor solar e o degelo aumenta, o que faz subir, por sua vez, a temperatura do mar. Deste modo, o ciclo é reforçado: é aquilo a que chamamos ‘amplificação polar’. Por exemplo, o glaciar Marr chegava, anteriormente, a escassos metros dos laboratórios de Palmer. Agora, encontra-se a três quilómetros.”

Icebergues do tamanho de países
Por sua vez, Ducklow avisa que, se o aquecimento prosseguir, “a temperatura invernal subirá acima do ponto de congelação em mea­dos deste século, um acontecimento que provocará enormes alterações no ecossistema”: “O gelo que cobre a superfície marinha diminuiu cerca de 40%, e o tempo de duração dessa camada viu-se reduzido em 80 dias. Nos últimos 25 anos, desprenderam-se plataformas de gelo de tamanho semelhante a pequenos países, como a Larsen B e a Wilkins (de 150 por 110 quilómetros).” Este declínio afecta várias frentes, incluindo as aves marinhas voadoras e os pinguins, que habitam a tripla fronteira entre o gelo, o ar e a água.“

Aqui, havia uma colónia de pinguins-de-adélia (Pygoscelis adeliae); ali outra e, acolá, mais outra”, assinala a bióloga Kristen Gorman enquanto caminhamos, com a neve pelos joelhos, no meio das afiadas arestas de granito da ilha de Torgersen. “Nesta zona, chegaram a viver cerca de 9000 casais; agora, restam menos de 2000. É frustrante”, queixa-se, enquanto inicia uma rápida contagem dos membros da colónia. Com pouco mais de quatro quilos e uma altura de 70 centímetros, o Pygoscelis adeliae é uma das duas espécies de pinguins autóctones do gelo antárctico (a outra é o imperador, Aptenodytes forsteri). Habitam ilhas rochosas no meio do manto de neve e os seus ninhos cónicos são feitos de pedras.

Detemo-nos diante de uma comunidade com cerca de 500 casais, em pleno processo de nidificação. Há um forte odor a guano no ar, mas as biólogas nem se apercebem disso. Machos e fêmeas, alguns com o peito manchado de excrementos, fazem turnos para chocar os seus dois ovos. Colocam-nos mesmo no meio de uma dobra de pele abdominal, revestida de uma espessa rede de vasos sanguíneos que transferem o calor para o ovo. As primeiras crias da estação estão a nascer neste preciso momento; o débil piar perde-se entre o estridente clamor dos adultos, que, surpreen­den­temente, se reconhecem pela voz.

“Os pinguins precisam dos blocos e das extensas camadas de gelo que cobrem o mar para descansar sobre eles. Além disso, se houver menos gelo, são obrigados a nadar para mais longe para obter krill, pois esses crustáceos põem os ovos sob a água em estado sólido”, explica Gorman. Os pinguins-de-adélia formam uma das espécies mais robustas do planeta: parecem esferas de músculo sólido e conseguem nadar quase 6000 quilómetros durante as migrações invernais. Todavia, estão a ficar encurralados pelo aquecimento.

Descobertas inesperadas
“Não se trata apenas da comida”, indica Bill Fraser, director da investigação sobre estas aves, acrescentando: “Com menos gelo, há mais evaporação, o que se traduz num aumento das quedas de neve durante o Verão, a qual se acumula em locais protegidos do vento. É aí, precisamente, que as colónias tendem a estabelecer-se. Quando vem o sol, a neve derrete, inunda os ninhos e mata tanto os ovos como as crias recém-nascidas.”

Alguns exemplares migraram em direcção a Sul. Todavia, como adverte Fraser, há-de chegar o momento, à medida que as temperaturas continuarem a subir, em que já não terão mais Sul para onde ir. Até agora, apenas os 300 mil casais que habitam a península antárctica estão em perigo. Os outros 2,2 milhões de pinguins-de-adélia, distribuídos por outras zonas, encontram-se a salvo. “Mas por quanto tempo?”, interroga-se o especialista. Enquanto diminui a população dos pinguins-de-adélia, aumenta a do pinguim-gentoo (Pygoscelis papua), de bico vermelho, uma espécie subantárctica destas aves esfenisciformes que evita o gelo, pois depende das águas limpas para obter alimento.

O território onde os cientistas da base Palmer desenvolvem as suas actividades já não é o mesmo. “Em apenas 30 anos, assisti à transformação do sistema polar em subantárctico”, explica Fraser. “A lição número um é que os habitats podem mudar num nanossegundo. Os animais, as plantas e os insectos do planeta já estão a adaptar-se a uma alteração climática moderada, adiando as datas de migração ou os ciclos de acasalamento e floração. Os organismos que não se adaptam desaparecerão em muito pouco tempo.”

A confluência de diferentes instrumentos e disciplinas na estação está a dar frutos. Por exemplo, se não seguisse a pista dos pinguins, outro grupo de biólogos não teria descoberto que o fitoplâncton (algas fotossintéticas das quais se alimenta o krill) está a mudar a sua localização na coluna de água. “Descobrimos que, na ausência de gelo, grande parte desse plâncton vegetal tende a concentrar-se nos íngremes declives subaquáticos. O Slocum Glider, um robô autónomo que vai obtendo todo o tipo de parâmetros oceanográficos durante semanas, só teve de seguir os pinguins marcados com transmissores controlados por satélite para descobri-lo. É o género de interacção que enriquece a ciência moderna”, esclarece Alex Kahl, da Universidade de Rutgers (Nova Jersey).

O Slocum Glider é um sofisticado tubo amarelo carregado de sensores. Em 2009, uma versão relativamente maior fez história após atravessar, de forma autónoma, o Atlântico, entre Nova Jersey e os Açores. A versão antárctica ajudou Kahl e o seu colega Brian Gaas a recolher informação sobre a geologia local e a verificar o estado de saúde dos nutrientes marinhos.

“O robô está equipado com um sistema que dispara impulsos de luz ultravioleta”, explica Gaas. “Se estiverem em boas condições, os minúsculos seres vegetais reagem e absorvem ou reflectem os flashes. Usamos também uma grua com sensores para determinar, até aos cem metros de profundidade, até onde penetram os raios solares, assim como os níveis de salinidade e temperatura.” Esses parâmetros são cotejados com outros, como a concentração e a qualidade do krill e das bactérias e a alimentação dos pinguins. A informação ajuda igualmente a interpretar os dados fornecidos pelos satélites.

Um dos elementos essenciais é a quantidade de azoto, na forma de nitrato, que se encontra dissolvida na água. “Esse sal é consumido pelo fitoplâncton, que produz clorofila. Na gíria científica, é costume dizer que é o elemento que determina o seu crescimento. Por isso, é preciso medir a concentração de azoto quase diariamente”, afirma Maggie Waldron, uma jovem bióloga do MBL.

Costeletas de porco e vinho tinto
Sob a neve e as rajadas de vento, ajudamos Maggie a recolher as amostras de água a cinco profundidades diferentes (entre os dez e os 50 metros), sempre nos mesmos dois locais. “Trata-se de verificar o que acontece com os microrganismos (por exemplo, as bactérias), à medida que o Verão avança e tanto a concentração de azoto como os restantes parâmetros se alteram”, explica a bióloga.

De regresso ao laboratório, tiramos o incómodo fato que nos permitiria flutuar no caso de cairmos nas águas gélidas (estão a um grau negativo) e começamos a processar as amostras antes de as condições ambientais em que foram recolhidas se alterarem demasiado. Depois, voltamos ao conforto da estação. O almoço consiste em costeletas de porco acompanhadas de vinho tinto. As grandes janelas da cantina dão para a baía, povoada por blocos de gelo esculpidos em formas caprichosas. Três baleias-corcunda deixam ver as suas caudas dentadas enquanto se aproximam do cais. “A grande diferença em relação aos outros mares é que o plâncton vegetal só pode introduzir biomassa no sistema quando há luz suficiente, isto é, durante o Verão austral. Isso significa que se produz, na época estival, uma enorme alteração energética que penetra na cadeia alimentar”, explica Alex Kahl.

“Isso leva-nos a pensar na variação dos níveis de gelo formados sobre o mar”, prossegue este perito em ecossistemas polares, enquanto observo os cetáceos com os binóculos. “Os pinguins-de-adélia precisam de uma plataforma gelada para repousar durante as suas expedições em busca de alimento. Todavia, nos últimos tempos, essa camada começou a deslocar-se para Sul, onde chega menos luz do Sol. O problema é que será difícil, nessas zonas mais austrais e sombrias, prosperar o plâncton vegetal responsável pela função da fotossíntese.”

O dia extingue-se numa claridade leitosa tingida de tons alaranjados, rosa e violeta. O fulgor estival coloca os investigadores sob o risco de sofrerem de extremo cansaço: esquecem-se, simplesmente, de dormir. Os 35 comensais dispersam em todas as direcções. Uns vêem vídeos sentados em cómodos sofás de pele; outros tiram fotos das mil faces do gelo; há os que escrevem diários e os que marcam encontro no fumegante jacuzzi voltado para a baía.

Os peritos em baleias ainda não chegaram à estação. Ao longo dos anos, aprenderam a ajustar as suas deslocações e horários aos das baleias-corcundas. Todavia, este ano, os cetáceos parecem ter-se antecipado aos humanos. Será melhor os cientistas adaptarem os seus itinerários aos novos ciclos biológicos.

A.P.S.
SUPER 154 - Fevereiro 2011

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Temos um ano para salvar o Planeta

A comunidade internacional foi advertida, esta segunda-feira, na abertura da conferência sobre alterações climáticas, em Poznan, oeste da Polónia, de que dispõe de um ano para se reunir e salvar o Planeta de um aquecimento fatal.

No encontro foi lançado um apelo para que seja concluído, no fim de 2009, em Copenhaga, um acordo global ambicioso no intuito de travar as alterações climáticas, apesar das dificuldades agravadas pela crise financeira.

Perante 9.000 delegados, cerca de 185 países reunidos a partir de hoje, e até 12 Dezembro, para a XIV Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, o presidente dos trabalhos e anfitrião do encontro, o ministro do Ambiente polaco, Maciej Nowicki, considerou que "a humanidade, através dos seu comportamento, já levou o sistema do Planeta ao seu limite".

"Continuar assim provocaria ameaças de uma intensidade nunca vista: enormes secas e inundações, ciclones devastadores, pandemias de doenças tropicais (...) e mesmo conflitos armados e migrações sem precedentes", afirmou, aconselhando os negociadores a não "cederem aos obscuros interesses privados (quando) devemos modificar o perigoso rumo que a humanidade tomou".

O presidente do Grupo de Peritos sobre a Evolução do Clima (GIEC) e prémio Nobel da Paz de 2007, Rajendra Pachauri, referiu também os graves impactos da "inacção".

Um número suplementar de pessoas, mais 4,3 mil milhões a 6,9 mil milhões, ou seja, "quase a maioria da humanidade", que vive nas grandes bacias fluviais, arrisca-se a ser afectado pela seca, alertou.

Em Dezembro de 2007, a conferência de Bali fixou um roteiro que deveria levar os 192 Estados signatários da Convenção da ONU sobre as alterações climáticas (CNNUCC) à conclusão, até 2009, de novos compromissos contra o efeito de estufa.

Esses compromissos foram reforçados e alargados para incluir os Estados Unidos e as grandes economias emergentes, entre as quais a China, que se tornou o primeiro poluidor mundial.

Até hoje, apenas 37 países industrializados (todos, excepto os Estados Unidos) que ratificaram o Protocolo de Quioto estão obrigados a uma redução de emissão de poluentes, no período entre 2008 e 2012.

"O trabalho que vos espera é, ao mesmo tempo, difícil e crítico: mas perante cada dificuldade surgem oportunidades, se souberem concentrar-se naquilo que vos une em vez daquilo que vos divide", afirmou o secretário executivo da Convenção da CNNUCC, Yvo De Boer.

"Têm um ano, de agora, até Copenhaga. O tempo voa. É preciso andar a uma velocidade superior", disse, admitindo que a crise financeira vai complicar a tarefa.

"A realidade é que mobilizar os recursos financeiros à escala necessária constituirá um verdadeiro desafio", disse.

Contudo, ressalvou, esta "crise não nos deve impedir de nos comprometermos no que diz respeito ao clima ou à redução da pobreza", considerou o primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen.

"Não nos podemos permitir abrandar o passo", afirmou, por sua vez, Brice Lalonde, embaixador de França para o clima, país que detém actualmente a Presidência rotativa da União Europeia. JN

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Japão vai voltar à Antárctida para caçar baleias, agora com escolta

O Japão anunciou que vai regressar às águas da Antárctida, a partir de Dezembro, para caçar baleias. Mas desta vez, a frota baleeira terá uma escolta nipónica para a proteger dos navios ecologistas da Sea Shepherd.

A notícia foi dada em conferência de imprensa pelo ministro japonês das Pescas, Michihiko Kano, segundo o qual um navio patrulha da Agência de Pescas nipónica vai acompanhar a frota baleeira. Desta vez, a caça à baleia “será realizada com maior protecção contra obstruções”, citou a estação de televisão japonesa, NHK.

Nos últimos anos, a caça à baleia tem vindo a tornar-se mais tensa por causa dos confrontos entre caçadores e ecologistas. No ano passado, em Fevereiro, as perturbações nas águas da Antárctida terão levado, pela primeira vez, Tóquio a suspender a sua campanha na Antárctida. O Sea Shepherd mobilizou várias embarcações para seguir a frota japonesa, utilizando cordas para bloquear as hélices dos navios nipónicos e colocando-se entre estes e as baleias. A organização garante ter conseguido evitar a morte de 800 animais.

Pouco depois, o Japão anunciou que iria ponderar o fim da caça “científica” à baleia, uma prática tolerada pela Comissão Baleeira Internacional, que proíbe desde 1986 a caça comercial aos cetáceos. Os países defensores das baleias e ambientalistas denunciam esta prática como uma caça comercial disfarçada.

Mas o ministro japonês acabou com as dúvidas e afirmou que o seu objectivo é conseguir a retoma da caça comercial e que, por isso, precisa continuar a investigação científica na Antárctida.

Por seu lado, a Sea Shepherd criticou a decisão do Governo japonês e disse que este ano vai reforçar os meios para travar a frota nipónica, com a operação “Operation Divine Wind”. No âmbito desta operação, serão mobilizados cem activistas voluntários para a Antárctida.

Paul Watson, o responsável da Sea Shepherd, acusa o Japão de “estar, simplesmente, obcecado por matar baleias não por necessidade mas por lucro, porque acredita que tem o direito de fazer aquilo que quer num santuário para baleias, reconhecido internacionalmente, apenas para defender a sua honra”.

domingo, 5 de agosto de 2018

Turistas e cientistas estão a levar para a Antárctida milhares de plantas invasoras

Os 40.000 turistas e cientistas que estiveram na Antárctida em 2007 levaram consigo, e sem o saberem, sementes de plantas exóticas invasoras, ameaçando um dos ecossistemas mais intocados do planeta, revela um estudo científico.

“Quisemos avaliar os riscos para a Antárctida como um todo, descobrindo que espécies estão a ser levadas para lá, de onde são originárias e quais os locais onde mais provavelmente se vão fixar”, disse o coordenador do estudo internacional, Steven Chown, da Universidade Stellenbosch, na África do Sul.

O estudo, publicado na segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Science (PNAS), revela que foram inquiridas 5600 pessoas, sobre os seus locais de origem e trajectos de viagem, de um total de 33.000 turistas e 7000 cientistas que estiveram na Antárctida em 2007.

Depois, os investigadores passaram em revista a bagagem e equipamento de 853 voluntários. No final do trabalho concluíram que, cada pessoa levava, em média, dez sementes na roupa, bagagem, bastões, calçado e equipamento. As equipas de cientistas tendem a levar mais espécies exóticas, mas a média baixa porque o número de turistas é muito mais elevado.

Os investigadores concluíram que metade das 2600 sementes recolhidas veio de outras regiões frias do planeta. “Isto significa que muitas destas plantas conseguem sobreviver às baixas temperaturas da Antárctida, o que é preocupante”, disse Steven Chown, em comunicado. De acordo com a Universidade de Stellenbosch, muitas das sementes pertencem a famílias de plantas que já são invasoras no Árctico, por exemplo.

Tendo em conta que “algumas zonas da Antárctida vão continuar a aquecer nos próximos 100 anos”, os investigadores acreditam que “é elevada a probabilidade de muitas espécies exóticas se estabelecerem e prosperarem lá”. As zonas mais ameaçadas são a Península da Antárctida, o Mar de Ross e as regiões costeiras da zona Este. “Com as alterações climáticas, estas zonas serão muito sensíveis porque será mais fácil para as plantas sobreviverem e fixarem-se nos locais onde o gelo recuou”, disse Chown.

Actualmente, várias espécies invasoras já se fixaram na Antárctida, como a gramínea Poa annua, em Portugal conhecida por relva-dos-caminhos.

“O problema das espécies invasoras é mundial mas particularmente delicado nas ilhas onde os ecossistemas são mais frágeis”, disse à agência AFP Marc Lebouvier, da Universidade de Rennes, França, e um dos autores do estudo. “O risco em ilhas como a Antárctida é de um desequilíbrio do ecossistema que se pode traduzir na substituição progressiva destas espécies de origem por espécies importadas que podem eliminar as plantas locais”, acrescentou.

As implicações deste estudo para a conservação dos ecossistemas da Antárctida serão debatidas no próximo encontro do Tratado da Antárctida, marcado para Junho na Austrália. O estudo fez parte do projecto do Ano Polar Internacional (2007-2008) “Aliens in Antarctica” e foi apoiado pelo Comité Científico para a Investigação na Antárctida (SCAR, sigla em inglês).

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Há poluentes novos que estão a levantar preocupações

Os medicamentos são engolidos por milhões de pessoas todos os dias e muitas substâncias são excretadas para a natureza sem serem degradadas pelo corpo, por isso acabam por acumular-se na natureza.

Este é apenas um dos exemplos das centenas de substâncias que a humanidade produz, mas que ainda não controla o destino final, como mostra o “Engenharia num minuto”, uma rubrica feita pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. 

“São já conhecidos efeitos resultantes da acumulação destes compostos na natureza ao longo dos últimos anos, quer ao nível da fauna marinha (excitabilidade dos peixes, diminuição de reprodutibilidade), quer ao nível dos sedimentos e águas, afectando o desenvolvimento da flora natural”, disse Arminda Alves, especialista em análise de micropoluentes e docente na FEUP. A investigadora sublinha que as porções mínimas destas substâncias não afectam a saúde das pessoas.

As substâncias mais preocupantes são, para Arminda Alves, “alguns fármacos, cuja acumulação no meio ambiente é ainda desconhecida, as fragrâncias e alguns químicos industriais como os agentes retardadores de fogo que existem em quase todos os bens de consumo”. Para a cientista deve-se fazer de imediato uma análise que avalie os riscos a que as populações estão expostas a nível regional, o que obriga a ter em consideração os hábitos de consumo das comunidades e as condições do ambiente.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Porto Rico aprova lei para proteger maior tartaruga do mundo


Chama-se Corredor Ecológico Nordeste, tem 14 quilómetros quadrados e é a mais recente área protegida na ilha de Porto Rico, nas Caraíbas. É um dos locais onde a tartaruga-gigante, também conhecida como tartaruga-de-couro, desova.

A tartaruga-gigante é a maior de todas as tartarugas, podendo pesar 600 quilos e medir dois metros de comprimento. A carapaça tem uma camada de pele, daí o seu nome. A espécie está em perigo crítico de extinção e é uma das mais ameaçadas devido à caça, apesar de viver no oceano e ter vários locais no mundo onde faz a desova. A nova lei aprovada, depois de 15 anos de luta legal.

“Este recurso importante, muito valioso em termos ecológicos, vai ser protegido para sempre. Está a ser feita história”, diz o governador de Porto Rico, Alejandro Garcia Padilla, citado pela BBC News.

A área protegida estende-se ao longo de 21 quilómetros de comprimento, abrangendo vários ecossistemas, com centenas de espécies diferentes, 50 das quais estão ameaçadas. Além da tartaruga-gigante, na baía abrangida pela área protegida vivem microorganismos que brilham no escuro, devido à sua bioluminescência.

Esta vitória, comemorada pelos ambientalistas, foi o capítulo final de uma luta intensa. Por diversas vezes a lei foi adiada, porque políticos e autarcas queriam fomentar o turismo para desenvoler a economia da região. Vários projectos de mega-hotéis, campos de golfe e de casas de luxo foram desenhados para aquela parte da ilha, mas foram sendo sucessivamente recusados.

Apenas 8% do território da ilha – que tem um décimo da área de Portugal continental – estão protegidos. É uma percentagem pequena quando comparada com as Ilhas Virgens norte-americanas, onde 54% do território é protegido, ou com a República Dominicana, em que 42% da ilha é protegida.

Cerca de um terço do Corredor Ecológico Nordeste está nas mãos de privados, e o Estado vai ter de comprar este território. Mas, a partir de agora, os mais de 400 ninhos de tartarugas que existem ao longo do corredor vão deixar de ter o futuro ameaçado.

Uma das ideias para a região é o desenvolvimento de turismo ecológico, com caminhadas e observações da eclosão dos ovos das tartarugas.

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terça-feira, 31 de julho de 2018

Caracol gigante é uma ameaça em Miami



As autoridades na região de Miami, no Sul da Florida, estão preocupadas com a infestação do caracol-gigante-africano que, nas próximas semanas, se vai tornar mais activo à medida que começa a estação das chuvas. O gastrópode, que pode alcançar o tamanho de uma ratazana e que devora todas as plantas que lhe aparecem à frente, chegou ao Estado norte-americano em Setembro de 2011.

Desde essa altura já foram apanhados 117.000 indivíduos. Por semana apanham-se mais de 1000 destes gastrópodes. “Eles são enormes, andam por aí, parecem que estão a olhar para as pessoas e a comunicar com elas, e as pessoas gostam disso”, explica Denise Feiber, porta-voz do Departamento para a Agricultura e para os Serviços dos Consumidores. “Mas as pessoas não se apercebem da devastação que esta criatura pode causar e libertam-nas num ambiente onde não têm inimigos naturais e prosperam”, diz, citada pela Reuters.

O caracol-gigante-africano, Achatina fulica, é original do Leste de África. Atinge os 18 centímetros de comprimento. Esta espécie é hermafrodita e cada indivíduo põe, em média, 1200 ovos por ano. A espécie já foi introduzida em locais tão diversos como a China ou o Brasil.

Nas próximas semanas os avistamentos destes caracóis vão tornar-se mais frequentes, à medida que os indivíduos vão saindo da terra onde estiveram em hibernação.

Esta não é a primeira vez que a Florida assiste a uma infestação da espécie. Em 1966, um rapaz trouxe de Miami três caracóis que, provavelmente, vieram no bolso do seu casaco. A avó do rapaz libertou os caracóis no seu jardim. Durante sete anos, a população cresceu, alcançando um efectivo de 17.000 caracóis. O Estado teve de gastar um milhão de dólares e demorou dez anos a erradicar a espécie.

O caracol também chegou a algumas ilhas da Caraíbas. Na ilha de Barbados, que está completamente infestada pelo gastrópode, a situação é tão grave que nas vias rápidas a carapaça do caracol fura pneus de carros que passam por cima. Por outro lado, o pavimento e as paredes estão preenchidos por baba e excremento do caracol. “Torna-se uma porcaria pegajosa”, descreve Denise Feiber.

As criaturas acabam por infestar as casas para se alimentarem de estuque e gesso e conseguirem assim obter o cálcio necessário para a carapaça. O caracol também é um hospedeiro de um verme que pode causar meningite nas pessoas, embora a doença ainda não tenha sido detectada nos Estados Unidos.

Não há certezas como é que a espécie chegou de novo à Florida. Uma pista que está a ser investigada é o grupo religioso Miami Santeria, com raízes na África Ocidental e nas Caraíbas. Em 2010 descobriu-se que estavam a utilizar estes caracóis para fazerem rituais. Mas a espécie pode ter chegado numa carga ou, inadvertidamente, na bagagem de um turista.

“Se alguém estiver na Jamaica ou na República Dominicana e tiver uma sanduíche de fiambre ou uma laranja, e não a comer totalmente, se a trouxer para os Estados Unidos e deitar o resto para o lixo em algum momento vai emergir alguma coisa destes produtos”, exemplifica Feiber.

Na semana passada, em Gainesville, na Florida, houve um simpósio sobre o caracol-gigante-africano. Os especialistas estiveram a discutir as formas mais eficazes para erradicar o molusco.

Esta não é a primeira vez que as autoridades da Florida se vêem obrigadas a lidar com uma espécie exótica e infestante. Desde 2000, que têm um grave problema com uma espécie de pitão que passou a habitar a região de Everglades, no Sul do estado.

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domingo, 29 de julho de 2018

No cimo da serra da Estrela já não se ouve o coaxar do sapo-parteiro



O alerta foi dado em 2009. Ibone Anza passeava-se na serra da Estrela e, numa das zonas do planalto superior, a investigadora do Instituto de Investigação de Recursos Cinegéticos, na Cidade Real, em Espanha, encontrou sapos-parteiros mortos junto a uma lagoa. Quando se analisaram os cadáveres, descobriu-se que estavam infectados com um fungo que causa uma doença - a quitridiomicose - que é responsável pelo declínio de muitas espécies de anfíbios.

Nos dois anos seguintes, Gonçalo M. Rosa andou a contar sapos-parteiros na serra da Estrela, num projecto para avaliar o impacto da infecção. Os resultados mostraram um cenário negro: houve uma diminuição de 67% de sapos-parteiros acima dos 1200 metros de altitude, conclui o estudo agora publicado na revista Animal Conservation por uma equipa internacional. É a primeira vez que se documenta em Portugal o declínio de uma espécie de anfíbio devido a esta doença.

Em poucos anos, o sapo-parteiro deixou de se ouvir durante a época de acasalamento, quando os machos faziam as suas vocalizações. Nem sequer se encontram sinais da praga. "Não tenho visto grande mortalidade porque simplesmente já não há indivíduos. Está-se ali com o camaroeiro, à procura de girinos, e não se encontra nada", diz Gonçalo M. Rosa, doutorando do Instituto Durrell da Conservação e Ecologia na Universidade de Kent, no Reino Unido, e no Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). "O sapo-parteiro pode desaparecer desta região."

O Alytes obstetricans, o nome científico do sapo-parteiro-comum, existe na Região Centro e Norte de Portugal. Passa a sua vida adulta longe da água, escondido nas rochas. Na serra da Estrela, a espécie reproduz-se a partir da Primavera. Depois, os machos transportam os ovos - daí o nome de sapo-parteiro -, e só quando os girinos estão prestes a sair dos ovos é que os machos os libertam para a água. Quando, finalmente, se completa a metamorfose, os animais saltam para terra.

"A Ibone viu os indivíduos mortos depois de terem terminado a metamorfose", diz o investigador de 29 anos. Foi na água que apanharam a infecção. Ainda ninguém sabe a 100% de onde emergiu o fungo Batrachochytrium dendrobatidis. Pensa-se que a doença provém de África e terá sido transportada para o resto do mundo com grande ajuda do homem.

Até ao início da década de 1990, não havia registos de mortes. Mas subitamente começaram a aparecer relatos do fungo em todos os continentes. O primeiro foi na Austrália, em 1993. Hoje, já infectou mais de 508 espécies, ameaçando de extinção 30% dos anfíbios e acelerando o declínio geral deste grupo de vertebrados que, antes, já tinha de lidar com a redução drástica do habitat e a poluição. Mas não se sabe há quanto tempo é que o fungo já estava na natureza.

Na Península Ibérica, foi identificado pela primeira vez o fungo no sapo-parteiro-comum na serra de Guadamarra, em Espanha, em 1997, por Jaime Bosch, do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid, um dos autores do novo estudo.

"A quitridiomicose está associada aos insectos e esta é a primeira espécie descrita a infectar vertebrados", explica Gonçalo M. Rosa. O estádio adulto deste fungo lança células microscópicas com flagelo, que nadam na água e se agarram a superfícies vivas com queratina. A queratina é uma proteína que está na pele dos mamíferos e na dos anfíbios. Os girinos do sapo-parteiro só têm queratina na boca, e é lá que o fungo se instala. Depois da metamorfose, cresce para a pele.

"A pele do sapo-parteiro fica com uma vermelhidão na zona ventral - barriga e pernas. Os animais começam a largar pele com muita frequência e em grande quantidade, o que não é saudável", explica o biólogo. "O fungo começa a causar buracos na epiderme e provoca uma perturbação da função da pele." No caso dos anfíbios, há uma boa parte da respiração que é cutânea e fica comprometida com a doença. O animal fica prostrado e morre.

Durante a década de 1990 Pedro Moreira (FCUL) e José Conde (Centro de Interpretação da Serra da Estrela) - outros autores do estudo actual - analisaram a abundância do sapo-parteiro na serra da Estrela. No caso dos girinos, contabilizaram-nos e, nos indivíduos já metamorfoseados, avaliaram a sua presença.

Em 2010 e 2011, a equipa voltou aos mesmos locais: riachos, tanques, lagoas e represas acima dos 600 metros de altitude. O objectivo era ter uma comparação da evolução da espécie. Depois, avaliou-se a presença do fungo em sapos-parteiros vivos, mortos e em girinos.

Pensa-se que o fungo está mais activo durante mais tempo em temperaturas baixas e o resultado da monitorização revelou-se desastroso para os habitats acima dos 1200 metros. A equipa concluiu que o sapo-parteiro "desapareceu de 67% dos pontos onde foi encontrado no passado, a reprodução está limitada a 16% dos locais e as larvas são menos abundantes e estão muito infectadas pelo" fungo. A altitudes mais baixas, o fungo está presente, mas não existe esta mortalidade.

Gonçalo M. Rosa vai voltar à serra em Maio. A seca prolongada de 2012 confundiu a altura de reprodução dos anfíbios e o biólogo não sabe o que o espera no campo. Ao mesmo tempo, tornou-se num detective. Está à caça de espécimes de anfíbios da serra da Estrela que museus portugueses e internacionais possam ter recolhido no passado para tentar saber mais sobre o agente da quitridiomicose. Não se sabe "se o fungo chegou recentemente ou já lá estava há dezenas ou centenas de anos".

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